A provocação de uma possível aposentadoria aos 18 anos foi um combustível para que ela desse a volta por cima e transformasse sua dor em sentido para viver
Uma dia, ela abriu os olhos e entendeu que aquele não era um despertar como o dos outros dias... Ela acordava de uma crise gravíssima de depressão após atentar contra a própria vida. Ana acabara de completar a maioridade, havia passado no vestibular para Economia e estava cheia de planos.
Conforme foi recobrando a consciência do que havia acontecido, foi surpreendida pela notícia de que havia tido parte da perna amputada. Sua maior surpresa, no entanto, foi o consolo que recebia da equipe médica e de enfermagem: "Olha, agora, você vai poder se aposentar".
O que era um consolo, transformou-se numa provocação. "Se eu sobrevivi é porque eu tenho que ficar aqui", decretou ela que ainda estava assimilando tudo o que tinha acontecido. Diante de um cancelamento das possibilidades, Ana sentiu uma vontade de demonstrar para outras pessoas com deficiência e para o mundo tudo o que era possível fazer, desde assumir cargos de liderança até viajar ou ir ao show de seus artistas favoritos.
Em meio a tantos desincentivos, a presença de inúmeras mulheres ao seu lado foi essencial para que ela pudesse conquistar seus objetivos. Ao longo de todo esse tempo, contou com o apoio da mãe, a amizade da tia e das amigas de longas datas, a sabedoria da avó e até a cantora Beyoncé foi importante para a sua recuperação. No mundo corporativo, contou com a mentoria de muitas mulheres, mas destaca um conselho emblemático que recebeu de uma chefe: "Foque nos seus pontos fortes".
"O tempo inteiro, as pessoas me limitavam. Receber este conselho foi um momento de virada porque, até então, eu me sentia numa batalha sozinha. Até hoje, sempre que enfrento algum momento desafiador, volto nesse conselho", conta Ana que faz questão de espalhar este ensinamento sempre que tem oportunidade, especialmente, para mulheres.
No seu dia a dia, Ana luta para que as pessoas com deficiência sejam percebidas pelas suas capacidades no mercado de trabalho especialmente. Ela se reconhece como uma mulher privilegiada, mas reflete sobre a negligência que tantas pessoas com deficiência enfrentam diariamente. "Se eu, com todos os recursos que tive, ainda encontro barreiras, imagina quem não tem acesso à tecnologia assistiva, ao tratamento adequado, à oportunidade de trabalho."
Ana luta para mudar essa realidade. Trabalha para que pessoas com deficiência tenham oportunidades, mas sabe que, na prática, muitas sequer conseguem chegar a uma entrevista por falta de mobilidade. Na sua luta por melhores condições para as pessoas com deficiência, entende que cada passo, cada conquista e cada mulher que caminha ao lado já é um movimento de transformação.
"Ao longo da minha caminhada, eu aprendi que, quando a gente promove avanços coletivos, a gente colhe muito mais frutos individuais", destaca e vai além "quando eu penso em transformar dor em aprendizado, entendo que todas coisas acontecem exatamente como têm que acontecer. A gente pode mudar o mundo, uma pessoa por vez, começando por nós mesmas. Nunca é tarde ou cedo pra nada".
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