A busca pelo autoconhecimento a fez descobrir que, por trás de uma brincadeira recorrente, existia uma história de vida mais profunda do que imaginava
Por intuição, Débora sempre se sentiu desconectada de alguma forma da família. Durante toda a vida, carregou uma sensação difícil de explicar, uma desconexão silenciosa, como se algo dentro dela não se encaixasse completamente. Não sabia explicar, mas a brincadeira era recorrente: "acho que não sou filha biológica, eu sou filha adotiva...". Tudo em tom de descontração, mas como ela mesma costuma dizer "sempre tinha algo que me soprava ao ouvido, que me organizava no sentido de buscar resposta para a pergunta 'quem eu sou?'".
Ao longo da vida, tentou entender detalhes que faziam ela não se sentir parte da família. Eram particularidades que, talvez, só ela sentia ou percebia. Com o passar dos anos, compreendeu que possuía um senso de unidade, de conjunto, de humanidade muito presentes em sua vida e isso a guiou para, profissionalmente, trabalhar com questões que envolvem o coletivo e o bem-estar comum. Isso a levou a uma busca mais profunda por autoconhecimento e, assim, formou-se também terapeuta alquimista. Nesse processo terapêutico, em meio a uma constelação familiar, as perguntas sobre pertencimento voltaram, mas, dessa vez, ela foi buscar respostas concretas.
Foi, então, que no dia 18 de dezembro, aos 57 anos, veio a descoberta: ela, de fato, fora adotada. Na verdade, havia sido doada. Soube que a mãe biológica não quis ficar com ela, e essa ausência deixou marcas que a atravessaram toda a vida. O chão pareceu se abrir. Vieram o choque, a tristeza, a raiva, a confusão.
Quando tentou ir em busca das próprias raízes, percebeu que já era tarde demais. A família da mãe adotiva já havia, quase toda, partido. E, do lado paterno, o silêncio tomava o lugar das respostas. As poucas pessoas que restavam não sabiam explicar o que de fato aconteceu. Ao esconderem a verdade por tanto tempo, tiraram dela a chance de conhecer sua origem, de entender a própria história.
Durante algum tempo, o silêncio foi o seu primeiro abrigo. Demorou para que começasse a se sentir a vontade de pôr pra fora, contar às pessoas sobre a descoberta e, nesse processo, esbarrou em muitas críticas. Houve quem acreditasse que ela estava "mal à toa", que deveria apenas seguir em frente, como se a dor de não pertencer fosse algo simples de resolver. Poucos se dispuseram a ouvir o que ela realmente sentia.
Foi conversando com outras mulheres que encontrou acolhimento. Para ela, a condição de ser mulher permite que sejamos mais facilitadoras. "A sensibilidade do feminino me fez encontrar escutas mais sensíveis", relata.
Enquanto terapeuta, explica que consegue dar espaço para que outras mulheres ocupem este espaço com ela e leva toda a sua vivência com leveza. Ela entende que sua história é feita de muitas camadas: de perda, de busca, de amor. E descobriu que o pertencimento não está apenas nas origens, mas também nos laços que escolhemos construir. "Hoje, saber da minha história faz com que eu me sinta fortalecida para trilhar e construir o meu caminho, sabendo que nunca estive sozinha. Estive somando com outras mulheres que me ajudaram a olhar com delicadeza para quem eu sou!"
0 Comentários